Agora Julia não tem mais problemas para enfrentar o
tédio do deserto cercado por sal onde fica cravada a
cidade de Uyuni. Quando alguém sente a sua falta, sabe
onde achá-la: a menina fica das seis da tarde até de
madrugada na única casa de internet da cidade,
instalada na única rua urbanizada de Uyuni, aquela
onde estão os hotéis e as casas que vendem pacotes de
turismo.
Conversando no messenger, sem querer a jovem descobriu
no castelhano um idioma que a leva mais longe que o
quéchua ensinado por seus pais. Às vezes Julia fecha
mais cedo o comércio onde trabalha para entrar no
chat. Não sente falta das moscas se aglomerando sobre
as frutas que Julia tem de vender diariamente. Mas ela
também não imagina que agora está perdendo, na única e
velha praça de Uyuni, de frente para a cordilheira dos
Andes, o cheiro da pele dos meninos que voltaram do
futebol e ainda se reúnem por ali.
(Bolívia/Salar do Uyuni/ março de 2005)
p.C, 2007.
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